segunda-feira, 14 de julho de 2014

Post 5 - Dinheiro imortal


Vivemos num mundo basicamente capitalista, onde o dinheiro se faz de fato necessário. Achar que daria para viver sem ele, me parece uma fantasia, pois aonde a sociedade chegou, no que se refere às relações sociais, não cabe mais retorno.
Mas, por que o dinheiro ou os bens que ele proporciona são tão imprescindíveis para tantas pessoas?
Parece muito incoerente o comportamento de muitas pessoas. Normalmente, ao perderem um ente querido, pontuam que "nós não valemos nada", "que da vida não se leva nada" e coisas do tipo. Filosofia de velório, eu diria.
Mas, ao retornarem às suas vidinhas, ainda que cientes de que ao pó voltarão, ao invés de se preocuparem mais com o ser do que com o ter, continuam insistindo no círculo vicioso da aquisição material desenfreada.
Mas, se ser rico e poderoso é a chave da felicidade, por que pessoas extremamente bem-sucedidas e ricas volta e meia apresentam quadros de depressão profunda, dependência de drogas ou até mesmo  situações de suicídio? Isso sem mencionar seus ambientes familiares hostis e violentos.
Ora, esses casos são a prova incontestável de que o dinheiro tem sua importância, mas o seu excesso não preenche as lacunas vazias do interior de um ser humano.
Meu pai sempre dizia: "Dinheiro é bom enquanto a gente manda nele". Mais uma sábia colocação dele.
Ter sua vida conduzida por ele não me parece realmente uma receita de sucesso.
Cabe bem aqui o conceito psicanalítico do deslocamento.
Por ser muito difícil identificarmos  ou encararmos a fonte real dos nossos vazios, damos uma de espertinhos e pegamos alguns atalhos,  elegendo situações externas como causadoras destas sensações desconfortáveis e deslocando para elas toda a nossa ansiedade. Uma delas é a situação financeira.
Várias hipóteses podem ser consideradas.
Ou o sujeito viveu uma vida de extrema pobreza na infância, passando por variadas dificuldades e humilhações e, por isso, tornou-se sedento de poder por vingança e recompensa.
Ou o sujeito já era rico, acostumado com um altíssimo padrão de vida, e deve continuar a saga de sua família na manutenção do status, pois se perdê-lo, perde junto a sua identidade. 
Ou é simplesmente um ser irracional mesmo, daquele bem fútil, que sequer enxerga o seu próximo dentro da própria família e acha que a vida boa, plena e feliz só pode existir quando se é muito rico e poderoso. Afinal, beleza, sexualidade, aventuras são muito mais presentes nos ambientes ricos do que nos pobres. Nisso todos concordamos.
Mas, são efêmeros e superficiais.  Diferente da vida harmoniosa, em paz e baseada em relações concretas de afeto.
Qualquer pessoa que imagine que o ser humano é mais do que o exterior, fica sem entender que importância é essa que tantos dão a riqueza, e em nome dela, cometem tantas injustiças e deslealdades.
Desta forma, considerando que buscar soluções ou compensações no dinheiro para as angustias nada mais é do que tapar o sol com a peneira, devo dizer que o que acho mais pernicioso neste comportamento está invisível, mas não inexistente: A total ausência de preparo dessas pessoas para a morte, e consequentemente, a ignorância total do significado da vida.
Quais serão os sentimentos de alguém que se julgava tão poderoso e absoluto diante da doença e da morte?
Todos sabemos que estas  duas situações são completamente democráticas, atingem ricos e pobres, e inevitáveis, pois todos iremos morrer.
Eu imagino que no momento final, estas pessoas que passaram a vida evitando olhar para dentro delas, e se recusaram a enxergar de verdade quem eram, terão um final de vida muito triste, senão desesperador.
Tudo pelo que lutou ficará para trás, ansiosamente esperado pelos herdeiros abutres. O poder adquirido não foi capaz de livrá-lo do fim, tendo ele o mesmo destino que as pessoas as quais ele julgava inferiores.
A morte não tem preço e não apresentará uma fatura de desconto ou negociação. Não há como compra-la, como comprou tudo e todos ao longo de sua vida.
De certo, ao seu lado, em seu leito, não terá pessoas amorosas, pois suas relações foram construídas em outras bases. Não havia tempo para sentimentos puros e verdadeiros. Só negócios e poder.
E, enfim, o tempo para reflexão e reconstrução de uma nova direção já lhe foi dado DURANTE a sua vida inteira, e desperdiçado. Acabou.
Como costumo dizer, mais uma encarnação desperdiçada.
Mais uma disputa pela imortalidade fadada a derrota.
Até.. ;)


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