terça-feira, 24 de junho de 2014

Post 3 - Morrer bem ou mal? Viver bem ou mal?


Retornando à 1985, quando vivenciei a experiência da morte da minha mãe, posso afirmar que a minha vida virou de ponta a cabeça.
A partir dali, tendo a morte como parâmetro, me comportei de variadas formas. Ás vezes, ficava deprimidíssima, do tipo "já que vou morrer mesmo, fico aqui parada, deitada, pois nada na vida faz sentido". Outrora, me comportava de forma eufórica e imediatista, na linha "se vou morrer, então tenho que aproveitar de tudo e já". E, aí, como já podem imaginar, eu metia os pés pelas mãos.
Com certeza nem uma nem outra era de fato uma boa opção. Além de indicar uma quase bipolaridade...rs, a angústia não se dissipava. Eu precisava encontrar o caminho do meio. Mas, aonde ele estava?

Curiosamente, meu pai, que nunca teve muita importância em nossa infância, pois o papel que lhe cabia era apenas o de reprimir e corrigir, se revelou um grande amigo, dotado de uma sabedoria ímpar, após a morte da minha mãe
Durante 08 anos nós (eu, ele e minha irmã) vivenciamos de uma forma bem solitária, pelo fato de sermos uma família pequena, dezenas de internações em clinicas cardíacas e, apesar das circunstâncias, guardo as melhores lembranças daquela época.
Não pela doença ou morte do meu pai (essa parte obviamente foi exaustiva física e psicologicamente), mas pelo que pude ver e aprender com aquele homem sereno, prático e destemido diante da possibilidade de morrer.

Por ter sido um homem muito simples, com poucas aspirações materiais, já que ele mesmo afirmava que um homem para ser feliz precisava apenas de uma casa para morar, um fogão para cozinhar, uma mesa para comer e uma cama para dormir, a iminência da morte não lhe trazia maiores angústias. 

Não havia bens para administrar, herança para dividir ou preocupações em deixar isto ou aquilo pelo que tanto lutou. Estava prestes a deixar o mundo como veio...  livre, leve e solto.
Por ter sido um homem bom e de caráter, não trazia arrependimentos ou sensação de que algo faltou fazer ou dizer. Como um bom libanês sempre foi muito amoroso com a família.

Certo dia, na UTI, disse-me claramente que estava cansado dessa vida. Que há 80 anos era o mesmo blá blá blá de problemas na educação, na saúde, corrupção e etc.... E que o problema era só um: O ser humano.
E, complementou dizendo que já podia partir, pois tinha dado instrução e orientação suficientes para mim e minha irmã, e, que a partir dali teríamos que seguir sozinhas.
Nem pude chorar ou pedir que lutasse...
Minha resposta foi de total concordância.."Vai na fé e obrigada". 

Então, vejam: duas experiências de morte com as duas pessoas mais importantes da minha vida, meu pai e minha mãe, e dois comportamentos e efeitos tão antagônicos.
Uma morria de medo da morte, era excessivamente preocupada com tudo, e de fato morreu jovem aos 50 anos, nos deixando completamente desnorteadas.
O outro ria na cara da morte, era apegado a mínimas coisas, e morreu aos quase 80, com uma serenidade espantosa.

Aquela resignação me impactou, e timidamente comecei a alinhar o meu caminho. 
Busquei ajuda terapêutica e comecei a ler vários livros sobre filosofia, psicologia, religião e auto-ajuda, por que não?
Em paralelo, pensava que finalmente eu teria um descanso para curtir um pouco mais a vida com meu filho mais velho, já que dos 16 aos 32 anos sempre estive envolvida em perdas, doenças e medo da morte. Era chegada a hora da diversão!!!!

Mas, a vida nos surpreende, e nem sempre de forma positiva.
Descobri um câncer de mama aos 35 anos, que foi o divisor de águas que faltava. 
A princípio, experimentei emoções enlouquecedoras, mas, ao final, adoecer tão jovem foi a porta de entrada para o meu almejado caminho do meio e, que eu ousaria dizer, um caminho sem volta.
Ali, diante daquela temida doença era pegar ou largar. 
Não dava mais para rever meus valores e redefinir minhas prioridades daquela forma tímida e suave como eu vinha fazendo. Era chegada a hora de partir para o tudo ou nada, e assim eu fiz.
Posso afirmar que os últimos 10 anos foram os mais felizes da minha vida! Quando falo isso, refiro-me à Danielle, ao meu interior, à minha paz de espírito e melhor compreensão do sentido da vida.
Claro que antes disso tive momentos extremamente felizes, mas eram momentos externos a mim.
Nos últimos anos, eu fui e sou diariamente feliz, mesmo que esteja mais desanimada por vezes. E sou feliz não porque não tenha problemas, mas porque aprendi que a felicidade verdadeira é baseada em conceitos muito diferentes daqueles equívocos que a nossa sociedade doente nos ensina.

Até...;)

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